29.12.07

Benazir Bhutto

Ontem foi mais uma vez visível que no Paquistão, tentar conduzir o país numa direcção diferente pode ser pago com a vida - neste caso, foi a vida de Benazir Bhutto, ex-primeira ministra e considerada favorita para vencer as eleições de 8 de Janeiro.

Num país volátil, onde se verifica uma ausência da estado em várias regiões e onde é treinada uma parte substancial dos indivíduos que cometem atentados suicidas em nome da religião islâmica um pouco por todo o Mundo e onde existem armas nucleares, ser líder nacional é colocar a vida em risco - seja qual for a orientação política, e a história do país, criado em 1947 depois de uma separação sangrenta da Índia britânica, demonstra isso mesmo.

No caso de Benazir Bhutto, estava em causa uma orientação democrática, seguindo os padrões da democracia ocidental, por oposição ao actual autoritarismo do descredibilizado e desgastado Pervez Musharraf, que mostrou ser apenas o “menos mau” face ao movimento jihadista.

Se a democracia como a conhecemos está muito longe de ser perfeita, ainda piores serão os regimes despóticos baseados num único indivíduo ou centrados numa elite, bem como os que são inteiramente baseados numa religião - a própria Benazir Bhutto foi demitida das duas vezes que ocupou o cargo de chefe de governo depois de lhe terem sido dirigidas acusações de corrupção, que nunca vieram a ser provadas.

O que irá sair daqui ainda é desconhecido, mas a desestabilização do país apenas favorece a causa dos que pretendem impor um regime inteiramente baseado na religião islâmica, à semelhança do que foi feito no vizinho Afeganistão.

Agora já não podemos saber como seria o Paquistão liderado por Benazir Bhutto no século XXI, sobretudo quando ela era a figura mais carismática da oposição a Musharraf e era vista por muitos paquistaneses como a pessoa mais próxima de tornar o Paquistão num país mais estável e seguro, sem necessidade de recorrer aos instrumentos de um estado policial.

Infelizmente, atentados contra a vida de pessoas que através de métodos legítimos pretendem contrariar as intenções de extremistas organizados acontecem frequentemente - e por enquanto, ainda é muito difícil para uma democracia saber lidar com eles, ao mesmo tempo que respeita a suas próprias regras.

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14.11.07

Paquistão

Já não sabemos ao certo o que é o Paquistão. Depois de ter passado para o terreno favorável ao ocidente na divisiva “guerra ao terrorismo”, Pervez Musharraf levou a cabo uma presidência onde a linha que separa a segurança e integridade do estado da ditadura é muito ténue.

O dilema coloca-se mais uma vez – o que é preferível para o ocidente? Um regime autoritário pró-ocidental (mas com uma opinião pública maioritariamente anti-ocidental) e militarista que pretende destruir as bases de apoio a grupos terroristas de cariz islâmico, ou uma democracia onde as vozes predominantes são as que pretendem aproximar o país de uma forma mais extrema do islão político, apesar de existirem movimentos democráticos com forte apoio por parte da população.

Se o regresso de Benazir Bhutto parecia indicar que havia razões para ficarmos optimistas, o que aconteceu desde então quase que destruiu o clima de confiança – a degradação nas condições de segurança e as manifestações por parte dos magistrados levaram a que Musharraf acabasse com a distinção entre poder legislativo, exectuvio e judicial e impusesse um estado de emergência que tem mais de lei marcial do que de outra coisa. Finalmente, o fim do entendimento entre Bhutto e Musharraf representou um retrocesso na medida em que deixa de existir um elemento unificador no objectivo da democracia – de uma forma simples, Musharraf quer conservar o poder, Bhutto organiza-se contra este objectivo e pretende uma democratização do país, com uma separação de poderes legítima e o fim das detenções aos opositores democráticos do regime.

Num país com um estado altamente ineficaz e onde a religião surge virtualmente como o único elemento de identificação para uma grande parte da população, este marasmo não contribui em nada para a estabilização de um estado nuclear, vizinho do Afeganistão e do Irão e ainda com um contencioso por resolver com a Índia. Já passou o tempo do general estar à frente do país, embora ainda seja muito difícil de conceber uma deocratização do país no futuro próximo. Se o pragmatismo prevalecer, é bem possível que as partes envolvidas encontrem uma solução de compromisso para evitar uma possível queda do país no caos, mas a existência de um movimento jihadista que se estende a todo o país e preenche o papel do estado quando este se encontra ausente, desequilibra opiniões para o lado do fervor religioso e prejudica ainda mais o panorama do país.

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