27.8.04

Amor&Ódio

Não fui só eu que regressei das minhas férias, regressou também a banalidade da minha vida e o meu desejo de descobrir um lugar novo todos os dias, nem um ano inteiro em Lisboa me permite descobrir mais do que apenas uma semana na Escandinávia...

É esta banalidade que eu tento evitar de vez em quando com alguns encontros com amigos e com visitas ocasionais ao cinema, embora já tenha visto o único filme que realmente me interessava nesta altura, fahrenheit 9/11, bastante interessante, diga-se. A maioria dos filmes em exibição em Lisboa são aquilo a que eu gosto de chamar, filmes pastilha elástica, ou seja, duram os seus 90-120 minutos e deposi acabam-se, sem qualquer impressão duradoura e sem memória. Ora isto entra em conflito com a designação de Sétima Arte, tantas vezes aplicada ao cinema, um filme pastilha elástica não é de forma alguma uma obra de arte, embora o conceito de arte não seja de todo universal, irão sempre haver pessoas com outras perspectivas.
Por falar em arte, garanto que não fui eu quem roubou as obras de Edvard Munch do Museu de Oslo, aliás eu já cá estava quando o crime aconteceu, a sério!

Por isso, agora que a vida voltou à normalidade, também este blog vai voltar à normalidade e cá vou eu começar a dizer mal de tudo sem ninguém escapar =P Ok, não sou assim tão crítico...

Acho que hoje vou escrever algo sobre os dois sentimentos mais poderosos dentro do ser Humano, o Amor e o Ódio. Toda a gente sabe o que são, julgo não ser necessário defini-los, no entanto, pela forma como são apresentados, o sentimento "Amor" aparece como muitos mais desejável e muito mais aceitável do que o "Ódio". Afinal, somos ensinados desde pequenos, não diria a amar tudo, mas pelos menos a não odiar. Esta é contudo, uma afirmação muito pouco sólida, afinal, a sua veracidade depende da existência de um fundo religioso na nossa educação. No meu caso, para minha grande felicidade, tal fundo não existiu!

Vamos assim dar a uma situação em que o ódio torna-se indesejado, repudiado, ostracizado...odiado! Ele é utilizado para o seu próprio exílio e destruição! Aqueles que tentam a todo o custo eliminar o ódio dos seus corações através de repulsas emocionais, não fazem mais do que utilizar o ódio para eliminar o mesmo, ou seja, e eliminação nunca acontece. É tão simples como a expressão "tapar o sol com uma peneira".
À primeira vista, é perfeitamente compreensível que as pessoas tentem eliminar o ódio das suas personalidades. Numa análise além da superfície, verifica-se que isso nunca pode deixar de acontecer, pelo simples motivo que o ódio é um sentimento perfeitamente Humano, tão natural como o amor. Trata-se de um sentimento que surge sem motivos racionais (se nalguns casos é possível de explicar, noutros não é) e que leva a que se cometam actos incríveis em direcção ao alvo do dito sentimento. Esta última frase que acabei de escrever é 100% aplicável ao amor e ao ódio, basta mudar as letras.

Todos sabemos que a repressão de sentimentos é pior do que a sua expressão, se tal é aplicado a sentimentos de dor, de frustração ou até mesmo de alegria, porque não em relação ao ódio? Não será mais Humano dar a conhecer ao alvo os reais sentimentos em relação a ele? Desde que tal não resulte em perigo para a existência do alvo (partindo do princípio que se trata de outro Humano) a mera expressão de sentimentos de ódio é benéfica para quem os tem. Não estão já documentados casos em que um indivíduo reprime os seus sentimentos mais ocultos que, mais cedo ou mais tarde, emergem numa explosão violenta que arrasta quem não tem nada a ver com o caso?

Tal como é possível amar uma pessoa, uma obra, um momento, um espaço, uma cidade, um país, um estado de espírito, é possível odiar os mesmos, ao ponto de desejar a sua destruição. Tratando-se de sentimentos que dizem respeito a cada um dos indivíduos, numa sociedade bem organizada e civilizada é possível conciliar estes sentimentos sem que isso coloque em perigo os alvos, porque numa sociedade como eu referi, nenhum indivíduo tem o poder suficiente para destruir uma cidade ou um país, nem será tentado a eliminar um outro Humano.

Visto isto, o ódio é um sentimento perfeitamente normal. Há quem o sinta, há quem não o sinta, é Humano, faz parte da nossa mente, quer nos agrade quer não e se tantas pessoas tentam desesperadamente reprimi-lo por motivos sociais, isso chama-se meramente hipocrisia. É por estes motivos que eu não tenho problema nenhum em afirmar aqui, para a meia-dúzia de pessoas que por aqui passam, que tal como eu amo também odeio e não tenho qualquer problema ou peso de consciência por causa disso, sei quais são os meus sentimentos, sei o que faço e sei como funciono. Quanto aos que tentam influenciar outros a reprimir o ódio, estou-me a lembrar assim de repente da "santa madre igreja" (olha, que coincidência!!!!), isso não constitui mais do que uma tentativa de controlo mental num quotidiano cada vez mais dominado por inseguranças e medos por parte dos indivíduos.
Tenho dito!

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