12.6.04

Of light&darkness...

Hoje está um daqueles dias que eu detesto, ou seja, está um calor incrível e o maior astro é mais malévolo do que benevolente à vida na Terra, pelo menos para mim!
Por isso, vou contrabalançar este clima com "Vampiria" dos Moonspell, para dar um ambiente absolutamente obscuro e Transilvânico ao meu quarto, um fragmento das trevas num sítio inundado de luz!
São dias como este que me fazem querer ficar em casa, embora isso também não seja uma alternativa muito razoável, a casa aquece bastante e tenho de aturar uma série de coisas...

O que é a luz? O que são as trevas?
A resposta está dentro de cada um de nós e difere de acordo com o nosso mundo interior. Para mim, são conceitos neutros mas nem por isso indiferentes. Para a maior parte das pessoas, "luz" tem uma conotação positiva, ao passo que "trevas" tem uma conotação bastante negativa. Talvez por falta de reflexão, ou talvez por medo? As trevas pressupõem, implicitamente, o oposto ao que nós gostamos, um vazio de tudo o que é 'bom' e em que todos sofremos. Para mim é diferente, diferente em duas dimensões. Não só porque eu tenho conceitos diferentes de "luz" e "trevas" quanto ao significado, mas também na abordagem dos seus efeitos, consequências e origens. Para os poder analisar, é preciso antes de tudo fazer uma transição conceptual e compreender que aquilo que normalmente se designa por "trevas" representa, para mim, aquilo que normalmente se designa por "luz" e vice-versa. Ou seja, é como dizer que as trevas de outros são a minha luz. No entanto, por questões práticas e de comodidade, vou usar aqui os conceitos com o seu siginificado vulgarizado.

A "luz" (as minhas trevas) representam a camada superficial, plastificada, manufacturada e adulterada das ideias, conceitos, pensamentos e acções de cada um. Uma construção admirável, sem dúvida, de todas as falsidades, mentiras e hipocrisias da sociedade, ideias perfeitamente vazias, coisas absolutamente banais, falta de raciocínio e aceitação vulgar sem qualquer ponderação de tudo o que nos é imposto, sem questionar minimamente, ou sequer tentar compreender o porquê. É o dogmatismo aceite sem a menor criação de dúvidas, sem a mínima elasticidade mental para poder contra-argumentar. Em particular, são os ridículos protocolos sociais, é a condescendência com que os Humanos se tratam uns aos outros, desprezando completamente a capacidade mental de cada um, que infelizmente, lhes dão razão, honrosas excepções sejam feitas! É a religião organizada, é o cristianismo, é o Vaticano, é a Bíblia, são as "aparições" de Fátima (A Igreja criou o marketing! Há que reconhecer que foi bastante inovadora!), é o fundamentalismo cristão, islâmico e judaico, é a "cultura pop" nas suas vertentes mais asquerosas seguida por quem nem sequer tenta conhecer outras formas. É a ignorância da qual não nos apercebemos e que todos sofremos, a um ou outro nível, não a nível concreto de conhecimentos estabelecidos mas sim ignorância no sentido de não sabermos potencializar o nosso cérebro, o organismo mais complexo que até agora foi descoberto no nosso planeta. Todos sofremos com isto, alguns mais do que outros, sem dúvida, mas todos somos vítimas da "luz" infecciosa e dos constrangimentos que nos cria. Eu próprio acabo por cair nela em várias ocasiões, felizmente que tenho consciência disso e muitas vezes vou a tempo de corrigir a minha acção. Desempenham bem o seu trabalho, os construtores da luz! A única "luz" a que eu sinto uma verdadeira ligação é ao Estádio da Luz!;)

As "trevas", a minha luz, representam para mim, tudo o que se opõe à dita "luz". E denominam-se trevas porque são quase impenetráveis para aqueles que foram cegados pela luz, demasiado limitados, constrangidos, amarrados para admitirem algo que vá contra as suas construções, aparentemente fortalezas inexpugnáveis mas frágeis castelos de areia para quem conhece minimamente as duas faces. As trevas representam o mundo a evitar para os cidadãos cumpridores e exemplares do mundo da luz, enculturados de tal forma neste ambiente que temem as trevas, temem ser invadidos por elas e temem cair no grande desconhecido. Esta construção implícita dentro das mentes dos seguidores da "luz" é imposta silenciosamente (ou talvez não) pelos sucessivos construtores daquele meio, para evitar ao máximo a perda de seguidores, reduzindo as trevas a uma atracção exótica que tem piada até certo ponto, antes de se tornar perigosa. Dentro das trevas, encontramos tudo, ou quase tudo, que nos torna verdadeiramente Humanos, o que nos permite ser as criaturas mais poderosas da Terra, o que nos dá orgulho dessa condição, a capacidade de criar um património ou de estabelecer novos patamares na constante Evolução Humana. Um grande número das conquistas realizadas graças às "trevas" foram realçadas pela "luz" como sendo assimiladas a esta, tornando-as partes da dita construção superficial. Das trevas vieram os melhores cientistas que a Humanidade conheceu, capazes de derrubar as barreiras que impedem o nosso progresso, destruidores de dogmas, desafiam os limites, quer físicos quer psicológicos, que nos são impostos. Das trevas vieram ainda os grandes artistas que marcaram a História da Humanidade ao longo dos séculos, os que usando a sua criatividade, criaram novos mundos e levaram a mente Humana a lugares nunca dantes imaginados, daqui vieram também os filósofos que desde há séculos nos concedem a sua excelente perspectiva sobre a Humanidade e as suas ideias.

Não há que temer as "trevas", muitas pessoas limitadas pela luz, sem o saberem, adoram as trevas, e isso só por si já constitui um motivo de congratulação para todos os incompreendidos pelo mundo. É possível criar um equilíbrio entre luz e trevas, é possível ainda colocar um factor neutro entre os dois, evitando assim que um se sobreponha ao outro, é possível até fundi-los, unindo assim a Humanidade com o fim de levar a um mundo melhor para todos nós, um mundo em que os Humanos, a grande maioria, sejam infinitamente interessantes, sem constrangimentos, sem submissões, sem dogmas e com uma criatividade interminável, sem que isso implique anarquia e irresponsabilidade total. Porque somos Humanos, porque já criámos tudo o que nos rodeia, porque criámos aquilo que muitos julgam que nos criou!

Da terra de ninguém, despeço-me por hoje...

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