17.8.07

Desequilíbrios mediáticos

Uma das críticas mais comuns que se costuma fazer aos meios de comunicação ocidentais, nomeadamente à televisão, aponta para uma concentração de notícias maioritariamente sobre os acontecimentos no próprio ocidente (cuja fórmula indica que um acontecimento no ocidente tem prioridade sobre um acontecimento em África, no Médio Oriente ou na Ásia, mesmo que este último seja mais grave), bem como para uma profusão de "notícias-átomo" sobre os países fora do chamado "Mundo ocidental" e que, regra geral, limitam-se a cobrir catástrofes, fazendo passar a ideia de que "naqueles países pobres" (forma de designar o que não é ocidental) apenas acontecem catástrofes naturais - terramotos, inundações, furacões, erupções vulcânicas, etc - ou catástrofes provocadas pelo homem - atentados, raptos, criminalidade violenta , etc - enchendo o tempo de antena com "notícias" sem interesse nenhum sobre as peripécias de uma qualquer celebridade cujo nome já terá caído no esquecimento dentro de 5 anos ou a cobrir acontecimentos a um nível local cujo interesse é muito duvidoso (a televisão portuguesa gosta muito disto, sobretudo se houver uma família sem electricidade e água canalizada, isso garante exposição mediática).

Até aqui, não há nada de errado, de facto alguns canais de televisão ocidentais preenchem uma boa parte do tempo com segmentos que não lembram a ninguém - o que interessa que o centro de saúde de Santo Antão dos Corcundas com Urticária agora feche às 18:00 em vez de fechar às 20:00? Não faria mais sentido cobrir temas que podem ter impacto no panorama global?

O que esta crítica parece subentender é que os canais de televisão não-ocidentais cumprem o papel que os ocidentais não cumprem, nomeadamente no que diz respeito à transmissão de notícias importantes sobre as suas regiões. Eu tenho sérias dúvidas que assim seja, e passo a explicar porquê:

- recentemente, a TV Cabo instalou receptores digitais nas casas dos seus clientes chamadas "Power box"; a sua qualidade é discutível e parece-me que há alguém (ou muitos 'alguéns') que não percebe lá muito de compressão de conteúdos na TV Cabo, mas adiante! Esses receptores funcionam com um cartão necessário para descodificar o sinal digital de forma a que possamos ver os canais em condições; há cerca de um mês, foram enviados novos cartões que após registadas davam livre acesso à maior parte dos canais codificados durante alguns dias (não, os canais Playboy e Venus não ficaram acessíveis, antes que perguntem); entre estes canais encontra-se o Zee TV, um canal indiano emitido a partir do Reino Unido e que pelo que eu percebi, pretende dirigir-se à comunidade indo-paquistanesa residente naquele país, já que passa sobretudo filmes e séries indianas com legendas em inglês

- agora, e isto merece um ponto próprio, tive o 'privilégio' de assistir a um telejornal da Zee TV, embora não tivesse legendas em inglês e eu não perceba nada de hindi (pelo menos acho que era hindi); uma vez que estavam a decorrer inundações catastróficas na Índia, Bangladesh e Nepal, seria de esperar que fossem tema de abertura e de destaque, já que o canal é indiano e dirige-se a indianos residentes no Reino Unido...mas por acaso não foi assim, na verdade mais de metade do telejornal foi dedicado a uma estrela de Bollywood que foi condenada a uma pequena pena suspensa por ter tido parte numa série de atentados em Bombaim no ano de 1993 (aqueles que levaram à detenção de Abu Salem em Portugal recentemente). Basicamente, foram cerca de 20 minutos dedicados a um galã do cinema indiano e ao seu julgamento e condenação, acompanhado de testemunhos de amigos (alguns dos quais ditos em inglês, pelo que eu percebi o homem é "uma excelente pessoa"). Só depois do intervalo e depois de uma notícia sobre a bola de Bombaim, é que vieram cerca de 2 minutos sobre as inundações na Índia, de uma forma muito "aérea" diga-se.

Segundo eu percebi por aquele telejornal, o galã de Bollywood sob julgamento por ter participado num atentado há 14 anos atrai muito mais atenção do que milhares de pessoas a morrer em inundações e milhões a serem deslocadas pelas águas, hoje em dia; isto é agravado pelo facto de ser um canal orientado para uma comunidade indo-paquistanesa na Europa. Será porque as vítimas das inundações costumam ser pobres e ou de uma varna baixa (sudras e assim, nada de brâmanes!) ou até intocáveis? Mas eu julgava que pelo menos os meios de comunicação dos países ditos "de terceiro mundo" faziam um trabalho mais equilibrado que os ocidentais...pelo menos não deveriam tratar tanto da Paris Hilton como fazem outros...querem ver que fui enganado? Houve um certo director da UNESCO que tinha uns tiques engraçados e que conseguiu afastar da organização uma parte importante do ocidente porque tinha comentários muito pouco pacíficos sobre os países ocidentais, até conseguiu que esta ficasse quase sem dinheiro, se calhar ele não estava assim tão certo como julgava.

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3 Comments:

Blogger razio said...

Como de costume a grande diferença entre pobres e ricos é apenas a riqueza.

18 agosto, 2007 02:19  
Blogger Cláudia Ribeiro said...

Parece que em todo o lado se faz jornalismo do género ' TVI' :S É pena.

29 agosto, 2007 22:14  
Blogger Cláudia Ribeiro said...

O teu professor � que tinha raz�o! :S

31 agosto, 2007 23:20  

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