8.2.06

A figura eternamente cómica

Acho uma certa piada à figura de Hugo Chávez. A sério, num Mundo em que os Chefes de Estado e de Governo assumem uma postura protocolar rígida e onde as suas declarações seguem parâmetros previamente definidos de forma a enquadrarem-se nos seus interesses instalados, tem bastante piada uma figura que profere declarações mais dignas de uma comédia, ao mesmo tempo que reúne uma grande atenção em torno de si. É por isto que eu acho particularmente interessante que as suas intervenções (quase) hilariantes sejam na sua grande maioria canalizadas contra George Bush e contra a política externa dos EUA. Chávez assume uma postura que ele afirma como socialista e gosta de pensar que, juntamente com Fidel Castro e Evo Morales, representa um contra-poder latino-americano face ao neo-liberalismo económico protagonizado pelas multinacionais norte-americanas que no seu entender, têm o objectivo (político) de assegurar o controlo das transacções comerciais a nível mundial. Ao mesmo tempo, Chávez encarna uma concepção pseudo-romantizada do ideal socialista da América do Sul, que passa por assumir uma retórica agressiva face ao "inimigo".
O que Hugo Chávez parece esquecer, ou ignora deliberadamente, é que o "inimigo" não pode ser corporizado num único indivíduo ou na mesma entidade política. Mais ainda, Chávez vive num Mundo próprio, ditado pela sua popularidade junto do eleitorado que ele identificou como alvo, e que importa satisfazer a todo o custo. O que na América Latina provoca reacções mais fracturantes, a política dos EUA face ao seu antigo "quintal", é assim cavalo de batalha de uma nova espécie de caudilho que tenta, a todo o custo, dar uma imagem democrática. Chávez parece ainda não ter em conta que os EUA não são nenhuma superpotência hegemónica e que a vantagem daquele país sobre a América Latina não indica necessariamente um domínio imperial, ou talvez se tenha apercebido disso e é por este motivo que não cessa nos seus ataques verbais a Washington, talvez isso se reflicta nas próximas eleições. Seja como for, Donald Rumsfeld não prima pela capacidade cerebral e dar a Chávez argumentos que ele pode usar contra os EUA é tão idiota como algumas das afirmações anti-americanas do presidente da Venezuela.
A propósito, Chávez disse recentemente que não teria qualquer problema em encerrar as refinarias venezuelanas nos EUA e vender o petróleo nacional a outros países. O mesmo indivíduo que, quando Jorge Sampaio lhe pediu para se debruçar sobre os adiamentos sucessivos do julgamento do co-piloto português da Air Luxor que se encontrava há vários meses detido no país a aguardar julgamento, afirmou não o poder fazer uma vez que na Venezuela existe separação de poderes. Engraçado que Chávez, um líder que se afirma como socialista, detenha o poder de ordenar o encerramento de infra-estruturas tão importantes como refinarias de petróleo e de vender aquele recurso a outros países. Onde está, então, o processo democrático e a separação de poderes?

1 Comments:

Anonymous Isabel said...

Decerto que a democracia do sr Chávez é um pouco diferente da tua ou da minha... decerto que o conceito de democracia parece obter diferentes concepções e acho que seria interessante escrever-se um livro com as variadíssimas definições de democracia... I'm ready! ;)

08 fevereiro, 2006 12:09  

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