18.8.06

Jardim zoológico para os desfavorecidos encefálicos

Periodicamente, as pessoas deviam ser obrigadas a dar provas da sua racionalidade. Deveriam ser instituídos testes anuais chamados “Verificação anual da racionalidade humana”, que iriam consistir em exames escritos, orais e físicos aos cidadãos com o objectivo de apurar se cada um é merecedor do título de “Ser Humano racional”.
Através das respostas dadas a perguntas do género “o que faria se visse uma câmara de televisão nas imediações?”, “como reagiria se lhe oferecessem um bilhete para um concerto do Tony Carreira?”, “o que define uma pessoa estúpida?” e, finalmente “por palavras suas, como acha que lhe deveríamos chamar?”, uma entidade especializada poderia assim passar atestados de racionalidade e de irracionalidade às pessoas. Quem fosse considerado racional, prosseguiria a sua vida normalmente até ao próximo teste, quem fosse considerado irracional, seria exibido num jardim zoológico, numa secção própria para o efeito: a cidade dos irracionais, patrocinada pela TVI e pelo jornal 24 Horas, estrategicamente colocada antes das aves raras, como forma de demonstrar a evolução das espécies no reino animal.
Na cidade dos irracionais, é possível observar como aquelas criaturas vivem o seu quotidiano em cativeiro, sem interferências da racionalidade exterior.
Para gáudio dos visitantes, poderemos observar assim os calhaus nas seguintes actividades:
- a divertirem-se, assistindo aos Morangos com Açúcar e à Floribella, à Praça da Alegria, à Fátima Lopes e àquele programa do Manuel Luís Goucha, bem como ao Fiel ou Infiel e a toda a programação da TV Record
- a instruírem-se, lendo o 24 Horas, a revista Lux e a Caras, bem como os livros de Paula Bobone e Margarida Rebelo Pinto e as revistas Maria e semelhantes
- a laborarem, trabalhando afincadamente na modificação dos seus carros com o objectivo de atrair as fêmeas com um festival de cores digno de um pavão - não existe fêmea desta subespécie que resista a um carro modificado, acreditem! Outra forma de laboração desta espécie é através de um engenho conhecido como Playstation, muito popular entre estas criaturas
- em meditação, de preferência num daqueles aparelhos que se encontram nos solários e que colocam a pele cor-de-laranja [talvez o perigo cancerígeno daquelas máquinas não seja acidental…]
- em auto-melhoramentos, sobretudo as fêmeas mas também os machos, através da extracção de produtos químicos que realçam as suas [des]virtudes físicas e aumentam de tamanho algumas partes do corpo [e não me estou apenas a referir a silicone], por vezes momentaneamente
- em cópulas, sobretudo os mais jovens calhaus, em cuja hierarquia a predominância se mede no número de fêmeas menores fecundadas e na exuberância das peles que envergam; normalmente, estas peles são retiradas de expressões bastante populares entre aqueles jovens e que podem ser visionadas diariamente na MTV, um esboço de levar música à subespécie dos calhaus…perdão, aos desfavorecidos encefálicos! As referidas peles são bastante vistosas e atingem um valor muito elevado na sociedade rudimentar destes seres
- em actividades do dia-a-dia destinadas a passar o tempo, como utilizar a parede de um edifício como encosto, colocar sinais tribais nestes através de latas de tinta, utilizar as cordas vocais como forma de interpelar semelhantes que se encontram a um quilómetro de distância, deslocar-se a estabelecimentos de assistência médica sem quaisquer sintomas, etc
Tentamos proteger espécies animais afastadas da nossa, quando nos esquecemos de olhar para estes nossos primos [em milionésimo quinquagésimo décimo segundo grau, entenda-se] que se separaram da espécie humana quando esta estava a dar os primeiros passos [há uns bons 2 milhões de anos atrás] e que apresentam uma perspectiva de estudos fascinante. Desperdiçar esta oportunidade de colocar milhões de criaturas em exibição, será tão mau como nunca erradicar a malária no globo, ou nunca atingir a alfabetização universal.
Realizem-se testes com esse efeito, reúnam-se os “desfavorecidos encefálicos” e criem-se jardins zoológicos para o efeito. A alimentação dos animais ainda não está decidida.

2 Comments:

Blogger Shrew said...

texto genial

19 agosto, 2006 21:45  
Blogger MoonnooM said...

LOLOLOLOLOL só essa mente para elaborar tal texto!! Amei!! Concordo plenamente!! Venham os testes!! lolol

19 agosto, 2006 22:27  

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