25.7.08

Uzbequistão

Uzbequistão...esse país da Ásia Central, antiga república da União Soviética, é tão...tão........faltam-me as palavras, mas não ia dizer nada de bom. Sim, tal como o vizinho Turquemenistão, o Uzbequistão optou por seguir a via do totalitarismo onde o poder está concentrado no presidente e no seu círculo íntimo, aliás o presidente é o mesmo desde 1990, uma vez que transitou calmamento do cargo "soviético" para "presidente uzbeque".
Massacre de Andijan, Maio de 2005; número de vítimas mortais desconhecido, possivelmente acima das 600.
Eu sei, eu sei, devia meter-me onde sou chamado...mas o Uzbequistão é um dos piores exemplos que se pode dar no que diz respeito ao tratamento dos cidadãos. Não só a tortura é uma prática comum por parte das forças da "ordem" ["ordem" governamental, leia-se], como as autoridades obrigam milhares de crianças e de estudantes a trabalhos forçados nas plantações de algodão, muitas vezes sem pagamento e sem protecção de qualquer espécie.
Pois bem, aqui temos mais um exemplo de como alguém que tenha a infelicidade de nascer no Uzbequistão tem a sua vida deliberadamente prejudicada por quem comanda o país - não só os principais meios de comunicação estão nas mãos do estado, como a própria internet é alvo de um controlo sufocante. Uma vez que todas as linhas de acesso à internet pertencem ao estado, é fácil para as autoridades uzbeques bloquearem e filtrarem todos os conteúdos que lhes parecem "ameaçadores". Imaginem como seria se tentassem aceder a um site que fosse considerado "perigoso para a integridade nacional" e que a tentativa de o visitar ainda os denunciasse e lhes garantisse um interrogatório por parte de polícias à paisana.
É algo que, vivendo numa sociedade democrática, não conseguimos imaginar, mas que acontece - não só no Uzbequistão, como noutros países, os mais óbvios são a China e o Irão. Infelizmente para os uzbeques, a censura é de tal forma eficaz que é preciso ser-se extremamente hábil para a contornar - enquanto nós podemos consultar livremente o site Ferghana.ru que apresenta várias notícias consideradas "incómodas" para as autoridades uzbeques, alguém que viva em Tashkent ou em Samarcanda terá muitos problemas se quiser aceder à informação ali apresentada.
Pior ainda, as autoridades uzbeques nunca tiveram qualquer problema com os Estados Unidos ou com a Rússia - embora se tenham afastado das tentativas de se aproximarem de Wahsington desde o massacre de Andijan, caíram nos braços do Kremlin que os acolheu com todo o gosto, afinal é mais um integrante do seu "estrangeiro próximo" - o que significa que uma intervenção externa no sentido de pôr fim a esta situação é impensável.
Isto significa que para o comum cidadão uzbeque, a maior ameaça não vem de grupos terroristas ou criminosos comuns mas do seu próprio estado - uma forma muito macabra de terrorismo.

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7.9.07

Only in China

Dispostas a assegurar a harmonia social e a paz interna de um país com 1300 milhões de habitantes, as forças de segurança chinesas - onde a afamada cordialidade dos povos asiáticos entrou em greve - acabam de ser alertadas pelo Ministro da Segurança Pública, Zhou Yong Kang, para não darem espaço de manobra a nenhum tipo de comportamentos desviantes que se afastem da norma pregada pelo Partido Comunista Chinês.

Acontece que no dia 15 de Outubro começa o 17º congresso do PCC, que segundo se prevê será o mais importante dos últimos anos, já que o todo-poderoso Hu Jintao, o homem que gosta de disparar contra "as forças inimigas ocidentais", pretende consolidar definitivamente o seu poder, já que na República Popular da China não basta ser Presidente ou Secretário Geral do PCC para convencer, afinal sempre são 1300 milhões e não queremos chatear tanta gente. E lembrem-se que os senhores delegados têm de se reunir com toda a harmonia e tranquilidade - para desarmonias e intranquilidades já bastou o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural...

Entre as possíveis ameaças à harmonia da sociedade chinesa, encontram-se as "forças maléficas" de seitas como a perigosíssima Falun Gong, os simpatizantes dos separatistas uigures da província de Xinjiang, ou o eterno (parco) apoio à causa tibetana. Isto ao nível "macro", claro está, ao nível "micro" encontramos "forças hostis estrangeiras e nacionais", o que normalmente é um eufemismo para pessoas que contestam a legitimidade do regime de partido único.

Outro aspecto interessante é que pretende-se igualmente limpar o ciberespaço chinês de forma a que este se apresente "harmonioso"...Harmonioso? Se em Portugal, um blog que resolve colocar no ciberespaço as irregularidades no percurso académico do primeiro-ministro praticamente abre telejornais e nós vivemos numa democracia o que não impede que um dos indivíduos responsáveis por isso seja constituído arguido, na China nem imagino qual seria a pena para 'desarmoniar' o ciberespaço. Digamos que não gostava de ser chinês, ou pelo menos de viver na RPC. É harmonia a mais...

Já agora, será que o senhor Zhou inclui na sua declaração referências a marcas ocidentais de brinquedos que contratam fábricas chinesas para tratar das suas encomendas, sem desconfiar que os seus contratados chineses colocam tinta de chumbo nos ditos cujos? É que para mim, a "harmonia" pode muito bem ser perturbada por uma intoxicação provocada por chumbo, mas isso sou eu. Já agora, se no nosso país a destruição de um hectare de milho transgénico foi defendida por alguns indivíduos, suponho que na China também será legítimo destruir uma fábrica cujos produtos são tóxicos, não?

É que de acordo com o senhor Zhou, todas as forças susceptíveis de perturbar a 'sociedade socialista' da RPC têm de ser cortadas pela raiz. A bem da coerência, ele podia ter dito algo do género "a nossa sociedade que embora se diga socialista consegue reunir o pior da economia de mercado que até devíamos já conhecer graças àquele livrinho inglês do rapazola que trabalhava na fábrica e que se atreveu a pedir um bocadinho mais de comida e o pior do chamado socialismo onde obrigamos toda a gente a sentir-se feliz por não viverem num desses países malvados".

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