23.7.08

Bulgária com fundos europeus suspensos

Especificamente, são referidas a falta de empenho das autoridades em pôr cobro ao crime organizado, à corrupção e à fraude existentes no poder executivo, bem como a discrepância entre o que é legislado e o que é feito. Os €500 milhões que acabam de ser suspensos dizem respeito a fundos que fazem parte do acordo de pré-adesão, mas se a Bulgária não cumprir com o que lhe é exigido, podem estar em risco os €4,5 mil milhões que são lhe destinados ao longo dos próximos cinco anos.
Hoje é publicada a versão final do relatório, que foi alvo de alguma suavização de forma a aliviar a dureza da linguagem usada, mas a mensagem que passa para os parceiros comunitários da Bulgária é esta - o dinheiro não está a ser bem aplicado e está a ser desviado em total desrespeito para com os países dadores e para com os cidadãos.
 
A Roménia foi igualmente alvo de avisos, não tão ameaçadores quanto os que foram feitos à Bulgária, é certo, mas ainda assim, os tribunais romenos não são suficientemente diligentes nas condenações por corrupção e por fraude - aparentemente, mais de 90% dos casos são condenados à pena mais baixa possível.
Já em 2004 se dizia que o alargamento de então a dez novos estados estaria a ser feito demasiado depressa e que não só a UE não teria capacidade de absorver os novos membros, como estes poderiam não estar [todos] prontos para se tornarem membros de pleno direito. Em 2007, foi a vez da Bulgária e Roménia aderirem à UE, depois de em 2002 não terem sido considerados como preparados para aderir em 2004. Aparentemente, havia alguns aspectos importantes que indicavam que estes dois países não estariam ainda preparados para aderir em 2007, mas é frequente estes aspectos passarem em claro em nome de objectivos políticos - para os dois lados, claro.

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14.7.08

União do Mediterrâneo


Algumas décadas mais tarde do que devia, eis que surge uma tentativa de formalizar a aproximação entre União Europeia e os países do Mediterrâneo sul e Mediterrâneo oriental - notem que eu lhe chamei "tentativa de formalizar a aproximação", não lhe chamei "União", porque isso não é possível.

Aparentemente, reina o optimismo - parece próximo um acordo entre Israel e a Autoridade Palestiniana [só faltam o Hamas e o Hezbollah], anuncia-se o objectivo de levar a paz a toda a região, tal como se fez com a Europa, referem-se assuntos a abordar como a imigração, educação e segurança...sempre com o maior dos cuidados para não tentar impor elementos estranhos como "liberdade de imprensa/expressão", "democracia" ou "respeito pelos Direitos Humanos" e que pouco ou nada dizem a países como Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto e Síria.
Depois de os estados membros da União Europeia terem percebido que do Norte de África não vinham apenas imigrantes mas que os contextos de pobreza dos quais eles fugiam [e quem é que não quereria de lá fugir?] são potenciais criadores de terroristas, chegou-se à conclusão que era imperativo mudar essas situações - mas só depois de se certificarem que não era possível fortificar a costa sul da Europa.
Acontece que existem vários pontos sensíveis a ter em conta: Israel e Palestina, que só por si são bem mais do que um ponto sensível, são uma verdadeira mancha dolorosa no panorama global; Líbano e Síria, com menos mediatismo mas ainda assim, uma situação onde durante anos um país dominou, de facto, outro mas só os países ocidentais praticam neo-colonialismo, atenção; Marrocos e o Sahara Ocidental, onde, oficialmente, não acontece nada de mal; Líbia, que já deixou de ser um estado "mau" e de um dia para o outro passou a ser "bonzinho" - apesar de Khaddafi ter recusado o convite de Sarkozy, uma vez que o ditador líbio vê na União para o Mediterrâneo uma tentativa de neo-colonialismo e de domínio europeu sobre os países árabes [refira-se que dominar outros países é coisa que Khaddafi nunca tentou, afinal ele nem poderes oficiais tem...].
Obviamente que não se pretendia provocar nenhum embaraço nem tratar de questões demsiado complicadas - Sahara Ocidental não existe, desrespeito da soberania iraquiana por parte da Turquia também não e, como já referi, nem pensar em falar em Direitos Humanos e democracia, o que está em jogo é demasiado alto para se perder tempo com particularidades que só interessam a alguns - afinal, Sarkozy quer deixar um legado para o futuro e pouco tempo depois do falhanço absoluto que foi a tentativa de ratificação do Tratado de Lisboa, criar a União para o Mediterrâneo não ficaria nada mal na História. 
Infelizmente, duvido que alguém vá tentar fazer alguma coisa quanto às pessoas nos países do Norte de África e do Médio Oriente que são presas e torturadas por "crimes" como criticar as autoridades locais...mas segundo dizem os entendidos, isso não faz parte da "cultura" local, por isso não devemos falar demasiado sobre isso, devemos, isso sim, tentar fazer algo pelas populações que habitam o Norte de África e o Mediterrâneo Oriental em conjunto com as autoridades locais...porque me parece que há algo de muito estúpido na parte final da última frase que escrevi?
Espero que Sarkozy e os outros líderes europeus estejam preparados para os EUA e para a nova presidência a partir de Janeiro - afinal, ninguém vai ficar agarrado à UE se de além-Atlântico vierem melhores contrapartidas.

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14.6.08

Ireland says no

Depois de meses de antecipação, os eleitores irlandeses que foram às urnas votaram contra o Tratado de Lisboa, pondo fim a toda a vaga de optimismo que começou em Outubro de 2007 com o final da cimeira intergovernamental e se estendeu até Dezembro com a assinatura do tratado no Mosteiro dos Jerónimos.

Será que desta vez vão ser retiradas as lições correctas? A linha oficial indica que um país de 3 milhões de habitantes foi uma voz de bloqueio num bloco de 495 milhões, um retrocesso de um único país contra a vontade colectiva dos outros 26 membros da União. Infelizmente para a UE, trata-se de algo muito diferente. Quando em 2005, a França e a Holanda votaram “não” ao Tratado Constitucional, os líderes europeus abandonaram a terminologia e deram a entender que a linha seguida estava acabada, até ao ano de 2007, em que surge um novo tratado, muito mais pequeno e com um vocabulário mais conciliador para as mentes mais assustadas. Tal tratado era mais compacto e mais prático, não sendo assim necessário submetê-lo a referendo, uma vez que bastava a ratificação parlamentar. Diziam os líderes...

Uma vez que os parlamentos são democraticamente eleitos, qualquer votação que neles decorra é perfeitamente legal e legítima, certo? Assim pensaram os líderes europeus e, se em 2005 a participação dos eleitores era vista como um elemento essencial para dar uma legitimidade democrática ao Tratado Constitucional [veja-se o grande resultado a favor do TC que foi obtido em Espanha], em 2008 os cidadãos passaram de participantes essenciais no processo a opiniões mal informadas e/ou mal intencionadas com o objectivo de destruir o tratado. Que mudança notável em apenas três anos! Devemos mesmo ser indivíduos ingratos que não reconhecem o trabalho dos líderes.

Fazer depender o processo de ratificação dos parlamentos nacionais foi uma boa forma de dar uma aparência legal e legítima ao tratado, não há dúvida. Como já sabemos, é bastante fácil mudar radicalmente de posição quanto à participação dos cidadãos na ratificação de um tratado que é largamente idêntico ao Tratado Constitucional rejeitado em 2005. Contudo, e por mais bem intencionados que os líderes europeus sejam, a lei fundamental irlandesa exige submeter a ratificação do tratado a um referendo nacional.

O referendo realizou-se ontem, e o resultado final foi de 53,4% contra a ratificação e 46,6% a favor. Como seria de esperar, já existem reacções que lidam com o assunto da pior forma possível: que o resultado é inexplicável uma vez que a Irlanda é um dos países que mais beneficiou com a entrada na então CEE; que a maior parte das pessoas não sabia o que estava em causa; que os detractores do tratado foram levados ao engano pela campanha do “não”...aparentemente, não vão ser retiradas as lições correctas deste resultado. Pelo contrário, há quem fale em encostar os irlandeses à parede por serem um pequeno país a meter-se no caminho de toda uma União [segundo disse Jacques Barrot, vice-presidente da Comissão e comissário da justiça, liberdade e segurança], ou seja, mais uma vez a linha oficial da União a considerar que há uma separação clara entre a vontade dos eleitores irlandeses e a dos outros cidadãos da UE, algo como uma mancha negra num imenso oceano azul.

O que todos sabem mas ninguém admite é que os irlandeses não rejeitaram o tratado por “ingratidão”, não o rejeitaram por não saberem o que estava em causa nem tão pouco o fizeram por causa dos argumentos mais rebuscados utilizados por quem fazia campanha pelo “não” [como os que apontavam para a legalização do aborto e da eutanásia no país caso o tratado fosse ratificado], seria tão simples se assim fosse. O resultado irlandês foi apenas mais um de muitos sinais que a população da União Europeia sente um fosso enorme entre a sua cidadania e o funcionamento da União Europeia e das suas instituições. Apesar de tudo o que foi feito nas últimas décadas, a UE ainda não se soube apresentar como uma entidade sólida, capaz de unir os seus membros em torno de objectivos comuns e com a devida seriedade para os seus cidadãos não a verem como uma imensa máquina burocrática com dirigentes muito bem pagos e que pouco produzem. Os líderes e dirigentes podem não gostar disto [e não gostam, pois não o admitem em público], mas existe uma opinião comum nos 27 países da UE de que a organização não tem em conta os interesses dos cidadãos.

A consequência vê-se em referendos como o que se realizou ontem na Irlanda ou há três anos na França e na Holanda. Quando os cidadãos se sentem abandonados ou ignorados, a reacção mais lógica é a rejeição. Os eleitores irlandeses não votaram contra o tratado em si, nem contra a União Europeia, votaram contra a forma como a União Europeia trata os seus cidadãos.

Ainda não sabemos como vão os líderes europeus resolver este problema. Quando em 2001, os eleitores irlandeses rejeitaram o Tratado de Nice, dois aspectos fundamentais desse tratado foram renegociados de forma a que os irlandeses o vissem com melhores olhos [a garantia de respeito pela neutralidade da Irlanda e a aprovação parlamentar para a participação irlandesa em iniciativas de cooperação reforçada] e no ano seguinte, em novo referendo, o tratado foi aprovado. É possível que o procedimento se repita, mas depois de tudo o que foi feito para a redacção e assinatura do Tratado de Lisboa, a única conclusão que se pode tirar é que nenhum dos intervenientes quer eliminar o tratado. De uma forma ou de outra, as suas disposições vão ser adoptadas, só não sabemos como. Dificilmente vão ser retiradas as devidas ilações. Depois queixem-se que os cidadãos votam “contra a Europa”, como se a ideia de europeísta significasse estar sempre do lado dos líderes europeus.

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28.11.07

Cimeira UE-África

Depois de toda uma telenovela e de expectativas crescentes envolvendo vários nomes, já sabemos que em princípio podemos contar com o simpático Robert Mugabe para a cimeira União Europeia - África em Lisboa no próximo mês de Dezembro.

A primeira consequência foi o anúncio do boicote de Gordon Brown, o PM britânico já tinha anteriormente ameaçado que não iria estar presente na cimeira caso a presença de Mugabe se confirmasse, agora parece ser definitivo que não vai estar cara-a-cara com o presidente do Zimbabwe.

No entanto, e infelizmente para o seu ego, Mugabe não vai ser o único ditador presente na cimeira. Muammar Khaddafi vai trazer o seu folclore beduíno para Lisboa, depois de quase 40 anos no poder . Ainda estou para ver se a sua guarda pessoal vai conseguir passar pelo aeroporto. De Angola chega o muito respeitável José Eduardo dos Santos, que está no poder há quase 30 anos, tem um estilo de vida frugal e comedido e, sob os seus auspícios, conseguiu realizar um número eleições livres e transparentes do que o número de membros do governo português que percebem alguma coisa de liderança nacional. Não sei se o presidente do Sudão nos vai agraciar com a sua presença, mas já agora, seria mais um indivíduo com quem se poderia trocar umas palavras interessantes acerca de Direitos Humanos. Ou porque não também falar do muito ético e responsável Ibriss Déby, o presidente do Chade que em 2006 recebeu uma larga quantia em assistência humanitária das Nações Unidas que depois utilizou na compra de armamento para esmagar uma revolta no sul do país. Os velhos estereótipos continuam vivos, sim senhor…

No entanto, e apesar de tudo isto, o grande circo vai ser montado em torno de Mugabe - e eu não percebo porquê. Longe de mim defender o homem forte de Harare, que tem muito a responder acerca da forma como dirige o seu país e como trata os seus cidadãos - há quem o admire mas eu não vejo muito que admirar num homem cujo governo destrói deliberadamente milhares de habitações na capital do país, num bairro onde vivem uma série de opositores ao seu regime.

Porque razão não são outros lideres confrontados com as suas práticas autoritárias? Porque razão Khaddafi passou a ser “bonzinho” aos olhos da comunidade internacional a partir do momento em que anunciou que iria abandonar o apoio a actividades terroristas? Porque motivo Gordon Brown está a fazer uma birra por causa de Mugabe mas não mostrou problemas éticos no que diz respeito à Arábia Saudita ou à China? O PM português também não tem grandes problemas desses, depois de ter elogiado as práticas de Vladimir Putin, de se ter recusado a receber o Dalai Lama e de não ousar tocar na questão dos Direitos Humanos em Angola, José Sócrates prepara-se então para receber Mugabe&outros como se de líderes legítimos e democraticamente eleitos se tratassem. Diferenças culturais, vão-me dizer? Diferentes entendimentos do conceito de democracia? Democracia ocidental como algo que apenas deve ser aplicado no ocidente? Muito bonito, mas desconheço qual a ideologia onde é aceitável manipular eleições, brutalizar a oposição e concentrar o poder político, económico e judicial num estreito círculo de poder e ainda assim afirma estar correcta.

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20.5.07

Nada de novo na frente oriental...

Como é bom ver que ainda há tanto material blogável por aí….enquanto houver Mundo e Humanidade, vai haver temas, porque a própria existência do Mundo e da Humanidade pressupõe que haja podres, qualidades, estupidez, inteligência, brilhantismo, mediocridade, cinzentismo, variedade e muitas coisas bonitas e feias que ficam pelo meio…

Já agora, é sempre interessante ver que para os lados de leste, o desejo de reconquistar o poder de outros tempos continua a sobrepor-se a entendimentos susceptíveis de beneficiar todo um continente. Afinal de contas, o que pensaria Ivan IV se o Kremlin não mantivesse uma postura de “vocês é que têm de nos agradar”? Agora que o efémero “eixo” Paris - Berlim - Moscovo ruiu, o panorama já não parece tão luminoso. Nada que, por enquanto, traga problemas aos senhores milionários russos, sem dúvida…

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