12.8.08

Geórgia - Rússia: o cessar-fogo

Ao quinto dia, finalmente um cessar-fogo de ambas as partes. Não significa que a paz tenha chegado, significa que quem estava em vantagem cumpriu os seus objectivos e sente-se suficientemente seguro para determinar o que acontece a seguir. Afinal não foi preciso chegar até Tbilissi, embora me pareça que a Rússia conseguiu habilmente deixar muitas pessoas a pensar que iria invadir a totalidade da Geórgia, sobretudo com as contradições no que o Kremlin dizia. Mesmo assim, alguns combates continuaram após o anúncio de cessar-fogo por parte da Rússia, que se encontra numa posição de domínio em relação à Geórgia. Não sabemos ainda como vai evoluir a situação na Abecázia - o cessar-fogo irá pôr fim às acções dos separatistas? E como vão ser as consequências noutros territórios separatistas onde existem movimentos apoiados pela Rússia? Será que a Transnístria virá a seguir e vamos assistir a uma invasão russa da Moldávia? E um cessar-fogo com Moscovo a ditar condições, irá certamente punir os responsáveis georgianos mas duvido que algum responsável separatista ou russo seja punido por algum crime que tenha cometido - não me surpreenderia, quando vemos Putin alinhar no discurso de "vocês também o fizeram".
O resultado está dependente do que for decidido nos próximos dias, a reunião da NATO com a Rússia será determinante, já uma resolução do Conselho de Segurança sobre o assunto deverá ter pouco impacto, se tivermos em conta que precisa da aprovação da Rússia e que arrisca a tornar-se num intrumento de Moscovo.
Destaque também para a eventual importância do ocidente neste assunto: a Rússia queixa-se de que o ocidente continua a observar o seu país do ponto de vista da Guerra Fria, não reconhecendo as mudanças que atravessaram o país. Porém, o fim da Guerra Fria não significa que a Rússia, sucessora da URSS, abandonasse os seus interesses e deixasse cair a sua ambição de potência global - um país com o tamanho da Rússia e, muito importante, com os seus recursos naturais e capacidade militar, nunca pode ser enfraquecido ao ponto de perder capacidade de projecção. O que nos pode levar a pensar que o fim do período bipolar não significou uma mudança tão titânica no palco mundial como se possa pensar, embora durante alguns anos muitos tivessem pensado que a Rússia se iria tornar numa espécie de "Gandhi global", apenas porque dissolveu o Pacto de Varsóvia, retirou as suas forças militares dos países da Europa central e pôs fim ao regime soviético.
A Geórgia anunciou que vai abandonar a Comunidade de Estados Independentes [embora, na prática já lá estivesse a fazer muito pouco e a CEI nunca tivesse tido uma verdadeira presença como organização intergovernamental] mas por enquanto, as suas tentativas de aderir à NATO vão ficar no limbo. O ocidente sente-se um pouco confuso - talvez por ter pensado que a Rússia iria tornar-se num "amigo", quase como o Reino Unido e os EUA são "amigos" e mais tarde por ter pensado que a Rússia seria um "parceiro forte".
Não gosto de ver referências a uma "nova Guerra Fria", sobretudo quando vejo que para muitas pessoas, a expressão "Guerra Fria" significa pouco mais do que uma medição de forças, que é o que potências globais fazem, de formas mais ou menos discretas. Nesse aspecto, a "Guerra Fria" nunca teria terminado, simplesmente mudou de insígnias e alguns dos participantes mudaram de lado. Estou também curioso para ver o que vai mudar nos países da UE mais próximos da Rússia [Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia] e na relação europeia com aquele país - vamos assistir a um verdadeiro esforço comum e a uma posição sólida da UE, capaz de demonstrar que é possível que 27 países consigam ter uma opinião e uma meta comum nesta questão?

Etiquetas: , , , ,

Geórgia - Rússia, o conflito continua

As horas passam e nada parece melhorar - nem os ataques russos param, nem os georgianos parecem aceitar que cometeram um erro com consequências graves para o seu país, como de costume quem sai prejudicado da situação é a população civil, vivam eles na Ossétia ou em qualquer outra parte da Geórgia.

De acordo com este artigo da BBC, alguns dos responsáveis europeus pela política externa e relações internacionais consideram que estamos próximos de atingir tensões semelhantes às que se viviam na Europa antes da II Guerra Mundial, com pelo menos uma acusação de a Rússia estar a agir como a Alemanha hitleriana em 1938 ou a Jugoslávia de Milosevic em 1991. Tal como já aqui disse, a missão de manutenção da paz que a Rússia realiza na Ossétia do Sul desde o final da guerra civil tem muito pouco de pacífica e nos últimos dias serviu apenas de suporte a uma retaliação armada.

O Le Monde apresenta cinco questões relevantes sobre o conflito: as possibilidades de se estender a outras regiões, o papel da UE e dos EUA e o objectivo de Saakashvili são aqui tratados, embora seja muito difícil fazer uma previsão exacta sobre quais os desfechos prováveis e eu ache muito difícil que a UE possa servir de mediadora na resolução do conflito.
Por sua vez, o Guardian refere a proximidade das forças russas a Tbilissi e a probabilidade cada vez maior de uma guerra aberta entre os dois lados, mesmo depois de a Geórgia ter aceite os termos de uma trégua. O artigo aponta ainda as aparentes contradições entre as declarações russas de que não iriam estender as suas acções militares além da Abecázia e da Ossétia do Sul e os bombardeamentos que atingem localidades georgianas nas proximidades da capital.
Da perspectiva russa, o Moscow Times apresenta os acontecimentos de domingo e de segunda-feira e dá destaque a uma declaração de Medvedev que, no mínimo, se pode considerar infeliz:   Medvedev, meeting the leaders of the State Duma factions in the Kremlin on Monday, cautioned the West not to flirt with "aggressors."

"I will remind you that history has plenty of examples of pacifying an aggressor. Western countries were engaged in this 70 years ago," Medvedev said, referring to the Munich agreement of 1938. The agreement, signed by Germany, Britain, France and Italy, "untied the hands of the Hitler regime" to annex and occupy part of the former Czechoslovakia, he said.
Pode não vir da mesma escola de Vladimir Putin mas aprende depressa.


Já o Kommersant realça a forma como o ocidente se torna cada vez mais crítico das acções empreendidas pela Rússia e como isso pode vir a ter consequências negativas nas relações entre os dois lados. Mais interessante é este artigo do mesmo jornal em que é calramente referido que uma das condições que a Rússia impõe para o cessar-fogo é a saída de Saakashvili do poder, uma vez que ninguém na Rússia aceitaria falar com ele. Depois de ter referido que não pretendia mudar o regime na Geórgia mas que alguns líderes devem considerar se o que estão a fazer é o melhor para os seus povos, a Rússia recusa-se a dialogar com o presidente da Geórgia e pretende estabelecer um tribunal ad-hoc em que Saakashvili seria indiciado por crimes de guerra. O mesmo jornal acusa ainda, através de uma notícia avançada pela agência RIA Novosti, que os EUA estarão a treinar mercenários ucranianos e bálticos que combatem ao lado das tropas georgianas no conflito.
Do ponto de vista dos georgianos, a Rússia é acusada de deliberadamente bombardear posições civis em várias localidades afastadas da região da Ossétia do Sul - entre as várias acusações apontadas ao Kremlin, encontram-se a utilização de bombas de fragmentação e o ataque indiscriminado a alvos civis. A opinião pública georgiana apresenta-se cada vez mais crítica em relação ao ocidente que consideram estar a falhar nos seus compromissos. Para terça-feira à tarde foi convocada uma manifestação de unidade nacional em Tbilissi.

Etiquetas: , , , ,

11.8.08

Geórgia - Rússia, nova actualização

Ao quinto dia de conflito, as perspectivas de resolução pacífica parecem cada vez improváveis. De acordo com a Geórgia, cerca de metade do país encontra-se sob controlo russo e está em curso uma verdadeira invasão em grande escala pelo controlo do país. Se a missão de manutenção da paz russa nunca foi uma verdadeira missão de paz no sentido que a ONU dá à expressão, os acontecimentos de hoje, a confirmarem-se, não deixam margem para dúvidas de que a Rússia tem como objectivo reduzir a Geórgia à mais pequena expressão. As tropas russas não só avançaram além da Ossétia do Sul em direcção a Gori como também entraram no interior do território georgiano a partir da Abecázia. Na prática, abriu-se uma segunda frente, de forma a prender os georgianos que se encontram a combater na fronteira meridional da Ossétia do Sul. Isto entra em contradição directa com o que um general russo afirmou, que a Rússia não pretendia invadir a Geórgia.

Vladimir Putin acusa o ocidente de estar a inverter os papéis e a olha para o problema numa perspectiva maniqueísta de preto e branco - o que é errado, uma vez que é quase impossível criar "bons" contra "maus". Contudo, há muito que o propósito da missão russa se esgotou e ao nunca ter contribuído para a resolução dos separatismos na Geórgia, a Rússia sempre foi uma parte activa do problema.

Para quem acusa a Geórgia de ser a agressora e de ser quem desencadeou este conflito, é igualmente preciso observar o conflito de uma perspectiva mais alargada: não se tratou de uma agressão inusitada ou de uma expansão de território, trata-se da integridade territorial de um país que se vê privado de duas regiões do seu território, porque o seu vizinho tem interesse em manter aquele impasse.

Fora do Cáucaso, ainda não se encontra nada definido, quer a nível de UE, quer a nível da NATO. Será preciso esperar mais 24 horas para sabermos o que vai sair daqui, com toda a certeza a Rússia irá cada vez mais ser vista como um pária aos olhos do ocidente, o que depois das duas guerras da Tchetchénia, não abona nada a favor da Rússia. É pena que a única superpotência mundial esteja demasiado comprometida com outros problemas, caso contrário teríamos espaço para uma actuação verdadeiramente digna por parte de Washington.

Entretanto, a Rússia acusa os media ocidentais de fazerem uma cobertura tendenciosa a favor da Geórgia e de não referirem as atrocidades cometidas pelo lado georgiano - mais uma vez, a falta de bom senso e uma forma bastante primária de tratar do assunto, quando a maior parte dos media russos são marcadamente favoráveis à perspectiva oficial e de acordo com a perspectiva oficial do Kremlin, a Rússia está a fazer o que está certo.

Por sua vez, a Ucrânia, país cujo poder é próximo do da Geórgia, afirma querer rever o acordo que permite à Rússia manter ancorada a frota naval do Mar Negro em Sevastopol [na Crimeia, território ucraniano], em particular, a Ucrânia pretende impedir que a base naval seja utilizada em períodos de conflito armado.

Etiquetas: , , , ,

Geórgia - Rússia, nova actualização

Após um mês marcado por descidas, o preço do petróleo voltou a subir em consequência do conflito que opõe a Geórgia à Rússia. A BP afirma que o oleoduto BTC não foi danificado mas não podemos fazer previsões sobre qual será o alcance deste conflito.
Ao mesmo tempo, um general russo diz que o seu país não tem planos para estender a sua presença além das duas regiões separatistas [que são território georgiano] para o restante território da Geórgia - não sabemos se isso vai acontecer ou não.

Etiquetas: , , , ,

10.8.08

Geórgia e Rússia - continua...

A Rússia já demonstrou que não permite qualquer contestação à sua influência no Cáucaso - após rejeitar pedidos de contenção por parte dos EUA e da UE, a acção militar russa atingiu o aeroporto de Tbilissi e impôs um bloqueio naval à Geórgia, de forma a evitar o fornecimento de armas por via marítima.
A Geórgia, por sua vez e após ter percebido que nenhum país ocidental iria arriscar perder uma única vida que fosse por sua causa, iniciou uma retirada - a medida mais racional quando se é o único país a combater contra a Rússia - e apelou a um cessar-fogo, alegando já ter cumprido a condição de retirada da Ossétia do Sul. Não sabemos se de facto todos os soldados georgianos já foram retirados da Ossétia do Sul, mas a Rússia não parou com os ataques a alvos dentro da Geórgia.
Já se tornou óbvio que não existe qualquer racionalidade ou sequer, o mais pequeno princípio de honra nesta situação. A Rússia, como país de projecção global que é, não quer que o Mundo a veja perder influência no seu "estrangeiro próximo", por isso tem patrocinado, nos últimos 17 anos, separatismos violentos em vários ex-membros da URSS. Isso já sabemos.
Que a Rússia mantém uma missão de "manutenção da paz" na Ossétia do Sul, também o sabemos. O que não sabemos é se alguém respeitável na comunidade internacional contesta a legitimidade dessa missão de "manutenção de paz". Uma missão de manutenção de paz, pelo menos de acordo com as que são implementadas pelo Conselho de Segurança da ONU, não tem como deveres apoiar, armar e financiar separatistas, tal como não tem como dever utilizar membros que não pertencem à força de manutenção da paz e bombardear alvos militares e civis fora do âmbito da sua missão.
A Rússia está a mostrar-nos que mais ninguém lhes vai fazer o que a Tchetchénia fez - esta proclamou a independência e os seus principais activistas recorreram a métodos terroristas que passavam pelo homicídio de civis inocentes; em resposta, a Rússia com a sua legitimidade estatal e para afirmar que quem detém o monopólio da violência é o estado, destruiu a Tchetchénia toda e arrasou a capital; pode ter acabado com alguns dos criminosos que cometeram atrocidades contra civis, mas destruiu a vida de milhares de civis que não cometeram quaisquer crimes.
Desta vez com a Geórgia, a Rússia está a demonstrar que este país não vai pôr em causa o seu poder fora das suas fronteiras no "estrangeiro próximo" - nem que para isso tenha que destruir a vida de milhares de pessoas na Geórgia.
O que acaba por ser mais absurdo é a forma como qualquer tentativa de chamar à razão quem detém o maior poder de acabar com este conflito [ou seja, a Rússia, que foi quem o criou] é recebida com objecções completamente infantis - afinal, os EUA não podem criticar ninguém porque também já interferiram nos assuntos internos de outros estados. É assim que a Rússia reage quando de Washington vêm tentativas de apaziguamento e avisos quanto ao perigo que a intervenção russa pode desencadear, uma vez que os EUA estão envolvidos em duas guerras no Afeganistão e no Iraque [e uma vez que a Rússia se opôs a estas invasões, não por motivos humanitários mas para afastar os EUA da sua esfera de interesses] e isso impede-os que alguém os leve a sério.
Sabemos que atingimos um ponto muito baixo quando as chamadas "elites" de alguns dos países mais importantes do mundo se vêem reduzidas a argumentos de escola primária, na linha de "eu posso fazer, tu também fizeste" - faz-nos pensar afinal para que raio servem a civilização, a honra e os princípios se só estamos à espera que o outro cometa um acto condenável de forma a legitimar o nosso. "Eles mataram civis? Vamos fazer a mesma coisa!" Sempre ouvi dizer que duas acções erradas não fazem uma certa e se a Rússia se opôs à independência do Kosovo mas apoia os separatismos de outros territórios onde também existem milícias armadas, então Moscovo não tem mais legitimidade moral do que Washington - afinal, parece que não houve assim tanta coisa a mudar com o fim do período bipolar.
Entretanto, está a preparar-se um novo cenário igualmente perigoso  - os separatistas da Abecázia, apoiados por militaress russos [quem mais?], iniciaram uma ofensiva contra as forças georgianas nas imediações daquele território. Depois de uma acção muito mal calculada na Ossétia do Sul, seria completamente ridículo [para não dizer quase impossível] que a Geórgia tentasse retomar o controlo sobre a Abecázia - estaremos então, a assistir a uma guerra preventiva da Rússia sobre a Geórgia, para garantir que depois da Ossétia do Sul, ela não tentará pôr novamente em perigo os interesses russos na região? Guerra preventiva...não faz lembrar nada?

Etiquetas: , , , ,


Click Here