24 de Julho
Trata-se de uma das datas mais ignoradas da História de Portugal e que, como muitas outras, fazem parte de um contexto mais alargado que é impossível de explicar em algumas linhas. Ainda assim, o dia 24 de Julho representa um evento muito importante para o país e quando um país ignora o seu passado, não está em condições de encarar o seu futuro.
24 de Julho de 1833 foi o dia em que as tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira entraram em Lisboa, após a conquista do Algarve, a travessia do Alentejo e a vitória sobre o general Teles Jordão em Almada. Portugal encontrava-se em guerra civil, entre os absolutistas leais a D. Miguel e os liberais leais a D. Pedro, que abdicara do título de Imperador do Brasil para regressar a Portugal e comandar a ofensiva contra a casa real portuguesa. A guerra civil ganhou um rumo decisivo a favor dos liberais que iriam vencer o conflito no ano seguinte, o qual terminou oficialmente com a assinatura da Convenção de Évora Monte.
Na história não pode haver "bons" nem "maus" e não podemos rotular liberais e absolutistas num espectro preto e branco - é um erro grosseiro e ao cometê-lo corre-se o risco de prejudicar o nosso olhar sobre o presente e sobre o futuro. Do ponto de vista de quem escreve em 2008, não posso deixar de considerar a vitória liberal como positiva para o país - ou talvez deva dizer, "menos negativa". A corrente absolutista rejeitava a nova organização política que se disseminara pela Europa desde 1789 e que, ironicamente, impôs ideias liberais através das Guerras Napoleónicas. O seu contributo não pode ser descartado e o apoio dado pela França e pela Inglaterra à facção liberal foi fulcral ao seu triunfo - pode-se então questionar se a vitória liberal em Portugal não teria sido apenas uma manipulação daqueles dois países que, face à indefinição de Portugal e Espanha não estavam dispostos a perder a sua influência na Península Ibérica e decidiram intervir.
É possível, mas num país pequeno como Portugal que recentemente tinha concedido a independência ao Brasil - a maior e mais importante possessão colonial portuguesa - isolar o país dos seus vizinhos iria trazer consequências nefastas para o seu futuro. Um eventual triunfo absolutista em Portugal, não só iria atrasar as muito necessárias intervenções na ordem do reino [em que Mouzinho da Silveira se tinha destacado, até ser afastado do governo antes do início da guerra civil] como iria colocar o país numa situação perigosa, face às maiores potências da Europa. Decorridas as invasões francesas e a ocupação britânica, Portugal não podia arriscar continuar afastado da corrente que varria a Europa, como se de um recanto isolado se tratasse.
É indiscutível que o período que se seguiu ao final da guerra civil de 1832-34 foi de enorme agitação e instabilidade em todos os sectores da sociedade - de uma magnitude que hoje não compreendemos uma vez que vivemos numa sociedade muito diferente daquela em que estes acontecimentos se desenrolaram - mas não deixa de ser verdade que ao olharmos para a História, conseguimos compreender que são necessárias mudanças dolorosas para assegurar uma evolução positiva - no caso de Portugal não seria tão positiva como se pretendia, ainda assim julgo que o balanço foi positivo.
Por isto, a data de 24 de Julho está ligada a um dos períodos mais importantes da História da Portugal e deixá-la no arquivo é errado - tal como outras datas daquele período, deveria ser assinalada oficialmente e talvez não fosse descabido estabelecer o dia 24 de Julho como o feriado municipal de Lisboa, em vez de um "santo" do século XII.
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